O Carnaval nunca acaba
Saudades da Sapucaí
Marcelo Camelo mentiu. O Carnaval não tem fim.
Ok, ele pode formalmente ter sido encerrado na Quarta-Feira de Cinzas, com a leitura das notas, esse maravilhoso evento que consiste na única planilha de Excel que é preenchida com acompanhamento ao vivo pela TV, seguido pela justíssima premiação à Viradouro. Sábado ainda tem o Desfile das Campeãs e pronto, ciclo 2026 encerrado.
Mas a verdade é que, no coração de quem ama, o Carnaval só tira férias. E elas são bem rápidas, e agitadas: nos próximos dias, veremos a versão escolas de samba do famoso “mercado da bola”, com o vaivém de carnavalescos, diretores e intérpretes entre as escolas, chegadas anunciadas nas redes sociais cheias de esperança de desfiles melhores e saídas com agradecimentos fajutos e desejos de sucesso pra boi dormir.
E precisa ser rápido, porque o Carnaval do ano seguinte já começa durante a Quaresma: com os novos profissionais definidos, começa a escolha dos enredos, a produção dos carros, alegorias e fantasias, a criação dos sambas, o arranjamento da bateria e por aí vai, tudo o que é necessário para a produção da nova festa. Neste ano, vale lembrar, um ciclo um pouco mais curto, já que o Carnaval de 2025 foi no começo de março.
E a gente, que só curte, tem então um longo período em que as lembranças são realimentadas pelas fotos, pela espera do lançamento das versões ao vivo dos sambas nos streamings; depois vêm os sambas concorrentes ao concurso da escola preferida, a escolha, as gravações oficiais e o novo disco, e a expectativa pelo próximo Carnaval volta a crescer.
Um amor construído ao longo das décadas
Eis aí a verde e rosa
Cantando em verso e prosa
O que ao poeta inspirou
É Dom Quixote ô
É Zé Pereira
É Charlie Chaplin
No embalo da Mangueira
Uma das primeiras lembranças que eu tenho do carnaval na televisão é desse samba da Mangueira de 1987, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Esse desfile já começou polêmico, como vemos no começo do vídeo acima: foram 29 sambas candidatos e o então presidente escolheu de forma monocrática, sem ouvir o júri e a comunidade. (Não ouvi os outros, obviamente, mas parece que ele tinha razão.) No fim, a Estação Primeira levou o campeonato, embora o desfile “Tupinicópolis”, da Mocidade, tenha despertado maior empolgação na avenida.
Como em casa a gente nunca foi muito fã do Carnaval em bailes e blocos, a avenida pela TV era sempre o nosso contato maior com a festa. Minha avó um ano em que ela me levou pra ver os desfiles aqui em Sorocaba, quando eles ainda existiam e eram realizados perto da casa dela. E houve um ano, que eu penso ser 1997 mas pode ser entre 1995 e 1999, em que ela, mais perto dos 80 que dos 70, simplesmente avisou algumas semanas antes: “Vou pro Carnaval do Rio” e foi, sozinha, ou melhor, sem ninguém da família, numa excursão. Viu os dois dias de desfiles, no segundo se cansou na metade e não quis esperar o fim, pegou um táxi até o hotel.
Meu pai, por sua vez, alimentou o sonho de assistir um dia ao carnaval na avenida, mas não conseguiu realizar. E eu, entre idas e vindas, proximidades e afastamentos, fui me afeiçoando cada vez mais até chegar ao arrebatador desfile da Mangueira dem 2019, espécie de marco da minha conversão definitiva, e que dialoga muito, afinal, com o incômodo sentimento de que algo no Brasil se quebrou naquele período.
Curiosamente, esse é um desfile que eu não vi ao vivo. Tinha ido passar alguns dias do Carnaval no Rio, fui a blocos, mas marquei a volta para a noite de segunda. A Alê tinha ingresso comprado e foi; quando cheguei na rodoviária de Sorocaba, no amanhecer da terça, um monte de mensagens dela, impactada com o desfile; cheguei em casa a tempo de ver os minutos finais, com o desfile das bandeiras. Chorei ali mesmo, como choraria dezenas de vezes ao assistir novamente..
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês
Atenção, Sapucaí!
O sonho de conhecer o carnaval na avenida foi enfim realizado no ano passado, após uma verdadeira maratona com escala no Anhembi: naquela noite de sábado, minha filha Iara desfilava com a mãe na Estrela do Terceiro Milênio, numa ala com adolescentes LGBTQIAP+ e suas mães.
De lá, corri até o Tietê e peguei o ônibus rumo ao Rio, para encontrar com a Alê que tinha ido antes, e encarar a aventura de três noites na Marquês de Sapucaí. E foi inesquecível. O primeiro som de repique, o primeiro carro a entrar pela Unidos de Padre Miguel, a entrada da Mangueira (segura, 5ª série), as baterias vistas e ouvidas de perto, o deslumbramento com o tamanho dos carros alegóricos.
Ter a chance de ver mais ou menos de perto Milton Nascimento, ter o privilégio de ouvir o último “Olha a Beija-Flor aí gente” do Neguinho... As lembranças estão na memória, alimentadas pelas centenas de fotos e vídeos feitos no celular, pela audição constante dos sambas, junto com a expectativa de voltar um dia.
Neste ano, por uma série de motivos, optamos pelo sofá pass, de onde derramei lágrimas diante da apoteose que foi o desfile da Viradouro com sua homenagem ao Mestre Ciça e me emocionei com tantas outras histórias brilhantemente contadas e ensinadas pelas escolas.
E agora, fim da linha? Nada disso: os sambas estão no streaming, assim como os VTs dos desfiles; daqui a alguns meses sai o que antigamente chamávamos de “disco ao vivo”, ou seja, a versão dos sambas na avenida, em áudio, nos streamings. Em breve começam também os anúncios dos próximos enredos; os concursos para a escolha dos sambas; os ensaios de rua. E quando a gente mal se der conta, o Carnaval do ano que vem já começou.
Porque, para quem ama, o Carnaval não tem fim.



